"A leitura do mundo precede a leitura da palavra." "Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem." "Língua Gosto de sentir a minha língua roçar A língua de Luís de Camões Gosto de ser e de estar E quero me dedicar A criar confusões de prosódias E uma profusão de paródias Que encurtem dores E furtem cores como camaleões Gosto do Pessoa na pessoa Da rosa no Rosa E sei que a poesia está para a prosa Assim como o amor está para a amizade (...)"

domingo, 5 de junho de 2011

A Regreção da redassão


“Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever:
_ Mas, minha senhora –desculpe-me -, eu não sou professor.
_ Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito.
_ A culpa não é deles. A falha é do ensino.
_ Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem.
_ Obrigado – agradeci -, mas não acredite muito nisso. Não coloco vírgulas e nunca sei onde botar os acentos.
A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor.
[...]
Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu:” Você não deve se assustar, o estudante
brasileiro não escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve em portas de banheiros, em muros, em paredes. [...]
_ Quer dizer –disse a um amigo enquanto íamos pela rua –que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante o emprego por mais dez anos.
_ Engano seu – disse ele. – A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão.
_ Por quê? Espantei-me. – Quanto menos gente sabendo escrever, mais chances eu tenho de sobreviver.
_ E você sabe por que essa geração não sabe escrever?
_ Sei lá – dei com os ombros -, vai ser que é porque não pega direito no lápis.
_ Não, senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito da leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem?
_ Taí um dado novo que eu não havia considerado. Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue.[...] Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim quem oferece hoje bilhete de loteria:
_ Por favor amigo, leia – disse, puxando um cidadão pelo paletó.
_ Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio. [...]
_ E o senhor, vai? Leva três e paga um.
_ Deixa eu ver o tamanho – pediu ele.
Assustou-se com o tamanho do texto.
_ O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo pra ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas? [...]
Não há dúvidas: o estudante brasileiro não sabe escrever. Não sabe escrever porque não lê. E não lendo, também desaprende a falar [...]
[...] Os estudantes não escrevem, não leem, não falam, não pensam. Tudo isso me faz pensar que estamos muito mais perto do que se imaginava da Idade da Pedra. A prosseguir nessa gravação, ou a regredir nessa progressão, não demora muito, estaremos todos de tacape na mão reinventando os hieróglifos. Neste dia, então, a palavra escrever ganhará uma nova grafia: ex-crever.”

(NOVAES, Carlos Eduardo. Os mistérios do aquém. 2a edição. Rio de Janeiro: Nórdica,1976)



INTERPRETANDO O TEXTO


1. A leitura do Texto “A Regreção da redassão” autoriza a formulação das seguintes afirmações. Analise-as.

I. Há uma certa crítica em relação às dificuldades dos alunos e das pessoas de modo geral em escrever, apontada no título.
II. As palavras do título são utilizadas de forma gramaticalmente incorretas sem expressar nenhum sentido no
texto.
III. Trata-se de um texto narrativo, mas não é uma crônica.
IV. Este texto é uma crônica que apresenta um enredo contendo diálogos entre o narrador e vários personagens.

A afirmativa é verdadeira nos itens

A) I e IV, apenas. B) I, II e III, apenas. C) I, II e IV, apenas. D) I e II, apenas. E) I, II, III e IV.

2. Leia o Texto “A Regreção da redassão” e procure apreender os pontos centrais de seus objetivos comunicativos e textuais.

I. Ao trabalhar o modo de organização discursiva, o autor explicita as características do gênero textual utilizado.
II. O autor aborda, com humor, a dificuldade das pessoas em escrever.
III. O autor faz uma crítica aos alunos que não lêem e, assim, ficam com o vocabulário comprometido, pois
conhecem poucas palavras, expressam-se mal e não organizam as idéias com clareza e coesão.
IV. Ao trabalhar o modo de organização discursiva, o autor estrutura cada parágrafo para que o leitor possa
compreender o texto e identificar as características do gênero textual utilizado.

A afirmativa é verdadeira nos itens

A) I e IV, apenas. B) I, II e III, apenas. C) I, II e IV, apenas. D) II, III e IV, apenas. E) I, II, III e IV.

3. Leia estes fragmentos do Texto e analise o que o autor quis sugerir com a grafia: “ex-crever”.

(...) Não há dúvidas: o estudante brasileiro não sabe escrever. Não sabe escrever porque não lê. E não lendo também desaprende a falar [...]

[...] Os estudantes não escrevem, não lêem, não falam, não pensam. Tudo isso me faz pensar que estamos muito mais perto do que se imaginava da Idade da Pedra. A prosseguir nessa gravação, ou a regredir nessa progressão, não demora muito, estaremos todos de tacape na mão reinventando os hieróglifos. Neste dia, então, a palavra escrever ganhará uma nova grafia: ex-crever.”

Aponte a alternativa correta.

A) Como os alunos não leem, a escrita será algo do passado. Há um comentário de que viveremos de novo na Idade da Pedra e nos comunicaremos através dos hieróglifos.
B) Como os alunos não leem, a escrita será algo do passado, mas aos poucos se vai aprendendo.
C) Como os alunos não leem, a escrita será algo do futuro.
D) Como os alunos não leem, a escrita será objeto de estudo das aulas de Língua Portuguesa.
E) Como os alunos não leem, a escrita será apenas algo do passado, sem perspectiva de futuro e presente.

Gabarito:


1. A
2. E
3. A

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