"A leitura do mundo precede a leitura da palavra." "Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem." "Língua Gosto de sentir a minha língua roçar A língua de Luís de Camões Gosto de ser e de estar E quero me dedicar A criar confusões de prosódias E uma profusão de paródias Que encurtem dores E furtem cores como camaleões Gosto do Pessoa na pessoa Da rosa no Rosa E sei que a poesia está para a prosa Assim como o amor está para a amizade (...)"

sábado, 22 de maio de 2010

Educação - Cisterna

Um poeta inglês chamado William Blake gostava de inventar aforismos. Aforismos são frases curtinhas que têm o poder de nos abrir os olhos. Um dos seus aforismos é este: “As cisternas contêm, as fontes transbordam”. Cisternas são buracos cavados para guardar água. Muito úteis em regiões de seca, como o Nordeste. Para que as cisternas tenham água, é preciso que alguém ponha água dentro delas. As fontes, ao contrário, são buracos que a água cava, saindo das profundezas da terra. Ninguém põe água em uma fonte. As fontes transbordam!

Esse aforismo me fez pensar que há dois tipos de Educação: a Educação-cisterna e a Educação-fonte. Educação-cisterna é aquela que lida com o aluno como se ele fosse um buraco vazio, dentro do qual os professores devem colocar os saberes contidos nos programas. O nome desse buraco onde os saberes são colocados é memória.

O problema da Educação, então, é fazer com que o buraco contenha a água, ou seja, que a memória não esqueça.

As provas são os mecanismos para medir quanto de água (saberes) ficou na memória.

Nas escolas, para se avaliar um aluno, os professores se valem de “provas” que são uma série de “perguntas” para as quais os alunos devem saber as respostas. As respostas se encontram nos livros e nos cadernos. É por isso que, normalmente, não se permite que os alunos consultem seus livros e cadernos: para não colarem. Os alunos que dão as respostas certas, isto é, os alunos que se lembram do que está escrito nos livros e nos cadernos, tiram boas notas. Isso quer dizer que eles são inteligentes? Não. Quer dizer que eles têm boa memória.

Não seria possível imaginar uma avaliação diferente em que se pedisse que os alunos formulassem as perguntas que fariam diante de uma certa situação apresentada pelo professor?

Todas as vezes que uma prova faz perguntas que têm a ver com memória, estamos diante da Educação-cisterna. Mas a memória esquece. A água se infiltra pela terra. Escorredor de macarrão. Vestibular. Por que a memória esquece?

Sugestão aos professores: chegar na sala de aula e dizer aos alunos: “Vamos fazer uma prova surpresa?”
Rubem Alves

Nenhum comentário:

Postar um comentário